'Soja louca', doença misteriosa
Anomalia vem sendo detectada em lavouras de Mato Grosso. Planta
não produz vagens e interrompe crescimento
11 de agosto de 2010 | 2h 32
Fernanda Yoneya - O Estado de S.Paulo
Uma nova anomalia detectada em lavouras comerciais de soja nas
últimas safras tem tirado o sono dos produtores. Pesquisadores
ainda não sabem qual é a causa do problema, mas, no campo, as
perdas com a queda de produtividade já chegam a 40%. "Estamos
evitando falar de uma doença de fato, pois ainda não se conhece a
sua causa. É um problema relativamente novo, pelo menos nessas
proporções", diz o pesquisador da Embrapa Soja Maurício Conrado
Meyer. Segundo ele, a anomalia já foi observada há mais de dez anos
em regiões do Pará, Maranhão, Tocantins e norte de Mato Grosso.
"Era um problema esporádico, em regiões mais quentes, e que agora aparece de maneira mais generalizada." Já houve, segundo o pesquisador, relatos de sintomas da anomalia no Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás, mas ainda não se sabe se se trata do mesmo problema.
Ciclo incompleto. A anomalia - que está sendo chamada por pesquisadores e produtores de "soja louca 2" - faz com que a planta não produza vagens, o que a impede de concluir seu ciclo. "As hastes ficam deformadas, as folhas escurecem e a planta não produz grãos, fica vegetando e não amadurece", diz Meyer. "Além de reduzir a produtividade, a anomalia afeta a qualidade dos grãos, porque a planta atacada que consegue produzir vagens dá grãos podres ou mal formados."
Vários fatores podem ser atribuídos aos sintomas - existe, por enquanto, a suspeita de que o problema esteja associado a um ácaro -, mas nada foi comprovado e também não se sabe qual mecanismo leva ao abortamento de flores e impede que a soja produza. Por causa disso, ainda não existe recomendação de manejo para debelar o problema. O pesquisador da Embrapa informa que a "soja louca" afeta cultivares convencionais e transgênicas.
A origem. O nome de soja louca 2 é referência ao problema da soja louca, que surgiu nas lavouras há muitos anos e que apresentava sintomas semelhantes. "A soja não amadurecia e não acompanhava o ciclo de uma planta sadia. Mas comprovou-se que a causa da soja louca era um percevejo, que hoje está controlado. Os sintomas da soja louca 2 são idênticos aos da soja louca, mas a diferença é que, agora, a planta fica estéril", diz o gerente técnico da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Luiz Nery Ribas. Ribas diz que conhecia o problema em casos isolados, mas que este ano houve uma concentração de relatos em áreas no norte e médio-norte de Mato Grosso.
"Ainda não sabemos de quanto foram as perdas, pois há produtores que não conhecem o problema e não nos comunicaram. Esperamos agora receber notificações e monitorar essas áreas", diz.
A anomalia já foi tema de discussão no mês passado, em evento em Cuiabá (MT), e está em discussão na 31.ª Reunião de Pesquisa de Soja da Região Central do Brasil, que termina hoje em Brasília (DF).
PARA LEMBRAR
Há nove anos, surgia 1º foco de ferrugem
Se este ano a "soja louca" é destaque da Reunião de Pesquisa de Soja da Região Central do Brasil, a ferrugem da soja - hoje considerada a principal doença da cultura - foi o assunto predominante do evento em 2002. Detectada pela primeira vez no País em 2001, a doença provocou na safra 2001/2002 perdas de 569.200 toneladas de grãos, no Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás, segundo a Embrapa Soja. Originária da China e disseminada pelo vento, a ferrugem é causada por um fungo que interfere no funcionamento dos tecidos e provoca a queda prematura das folhas.
Produtores de Sorriso temem prejuízos com a
‘soja louca II'
Sojicultores de Sorriso estão preocupados com o aparecimento de um
distúrbio vegetal batizado pela Embrapa de soja louca II. O
problema compromete a floração das plantas, que apresentam níveis
variáveis de abortamento e ficam vegetando indefinidamente no campo
sem produzir vagens suficientes para atingir a maturação.
Aliada à ferrugem asiática, a soja louca II pode comprometer os
lucros dos produtores. "A doença já está presente em algumas
lavouras da região de Sorriso e já está sendo monitorada pela
Aprosoja dentro dos mesmos experimentos que mapeiam focos da
ferrugem", explica Elso Pozzobon, presidente do Sindicato Rural de
Sorriso.
"Mas o mal já está tirando o sono de alguns produtores de Sorriso
porque se conhece quase nada sobre essa nova versão da soja louca",
ressalta. Especialistas estimam que a doença possa comprometer em
até 40% a produtividade das lavouras afetadas.
Além de Mato Grosso, o problema já afetou na safra 2009/2010
grandes áreas de plantações nos estados do Paraná, Goiás, Maranhão,
Tocantins, Pará e Piauí.
As causas dessa doença ainda não são conhecidas, mas há várias
suspeitas, como a ação de um ácaro preto, frequentemente presente
nas lavouras afetadas pela soja louca II. Também estão sendo
considerados fatores como o clima chuvoso, a existência de muitas
gramíneas entouceiradas nas lavouras ou mesmo os métodos e produtos
utilizados na adubação das plantas.
Sintomas
Os sintomas diferem totalmente da soja louca causada pelo ataque
intenso de percevejos. O que ocorre agora é que as plantas crescem
normalmente até começarem a mostrar um afilamento nas folhas do
topo com verde mais escuro e nervuras mais grossas.
"Esse material verde precisa ser eliminado através de dessecação ou
medidas mecânicas para evitar tanto a desvalorização do grão quanto
a preservação e multiplicação do inóculo da ferrugem no solo",
revela Maurício Meyer, pesquisador fitopatologista da Embrapa
Soja.
Sem identificar agentes causais de doença, ações pontuais de
pesquisa desenvolvidas pela Embrapa e outras instituições de
pesquisa abordam algumas hipóteses como a interação de fitotoxidez
da aplicação de alguns produtos químicos, calor excessivo e até
mesmo a possível atuação de um vírus do grupo da necrose da haste
da soja (Carlavírus).
Ainda não há resultados positivos sobre a causa da expressão da
soja louca II. Com isso, o maior entrave é a dificuldade de definir
estratégias de manejo adequadas. "Mas já observamos
experimentalmente que a incorporação de restos de cultura favorece
a diminuição do problema. Porém, a decisão de mexer no sistema de
plantio direto estabelecido fica a cargo do técnico responsável e
do produtor", explica Meyer.
Com a constatação de maiores prejuízos em áreas de monocultivo de
soja em anos sucessivos, outra forma de controle preconizada é a
rotação de culturas. Além da queda na qualidade do produto colhido
devido à mistura do material verde com a soja seca, algumas
avaliações estimam perdas de até 40% de produtividade no
Maranhão.
Fonte: Sérgio Édison - de Sorriso

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